Reflexões sobre o livro “Ruined by Design”

Como os designers destruíram o mundo e o que podemos fazer para consertar

Atuar nessa área é estar constantemente descontruindo e reconstruindo pensamentos, ideias e percepções, entender o que o outro sente, perceber como olhos, sentidos e emoção se conectam, aprender com críticas e evoluir constantemente. Como reflexão trago aqui um trecho do livro Ruined by Design do Mike Monteiro. Cheguei nessa parte que acredito ser essencial apara a leitura, em qualquer ponto de sua jornada. O artigo original do autor está neste link aqui.

Designers são antes de tudo seres humanos.

Antes de ser designer, você é um ser humano. Como qualquer ser humano no planeta, você faz parte do contrato social. Nós compartilhamos um planeta. Ao escolher ser designer, você escolhe impactar as pessoas que entram em contato com seu trabalho, e com as suas ações você pode ajudá-las ou prejudicá-las. O efeito do que você oferece para o mundo deve ser sempre uma consideração importante em seu trabalho.

Todo ser humano neste planeta é obrigado a fazer seu melhor e deixar este lugar em melhor estado do que quando chegou aqui, e designers não podem se isentar disso.

Quando você faz um trabalho que depende de desigualdade de salário ou distinções de classe para ter sucesso, você está falhando em seu trabalho como cidadão e, portanto, como designer.

Designers são responsáveis pelo trabalho que colocam no mundo.

Design é uma disciplina de ação. Você é responsável pelo que você coloca no mundo. Suas criações têm o seu nome nelas. E embora seja certamente impossível prever como qualquer um de seus trabalhos pode ser usado, não deveria ser uma surpresa quando um trabalho feito para ferir alguém alcança a sua meta. Não podemos nos surpreender quando uma arma que projetamos mata alguém. Não podemos nos surpreender quando um banco de dados projetado para catalogar imigrantes faz com que sejam deportados. Quando produzimos conscientemente um trabalho que prejudica outros por não considerarmos suas ramificações, somos duplamente culpados.

O trabalho que você traz ao mundo é seu legado. Viverá mais que você e falará por você.

Designers valorizam impacto sobre a forma.

Nós precisamos temer as consequências de nosso trabalho mais do que amar a sagacidade das nossas ideias.

O design não existe no vácuo. A sociedade é o maior sistema que podemos impactar, e tudo o que você faz é uma parte desse sistema, para bem ou para mal. Sendo assim, devemos julgar o valor de nosso trabalho baseado em seu impacto, ao invés de quaisquer considerações estéticas. Um objeto que seja projetado para ferir pessoas não pode ser considerado “um bom design”, não importa o quão esteticamente agradável seja, pois seu design é feito para ferir. Nada que um sistema totalitário projete tem um bom design pois foi feito por um regime totalitário.

Uma arma quebrada é melhor projetada do que uma arma de trabalho.

Designers devem às pessoas que os contrataram não apenas seu trabalho, mas seu conselho.

Quando você é contratado para projetar algo, é contratado por sua área de conhecimento e experiência. Seu trabalho não é apenas executar este trabalho, mas também de avaliar o impacto dele. Seu trabalho é transmitir o impacto desse projeto para seu cliente ou empregador. E caso este impacto seja negativo, é seu trabalho transmitir a seu cliente, juntamente com formas de eliminar (se possível) esse impacto negativo. Se é impossível eliminá-lo, é seu trabalho evitar que o projeto veja luz do dia. Em outras palavras, você não é contratado apenas para cavar um buraco, mas para considerar os impactos econômicos, sociológicos e ecológicos daquele buraco. Se o projeto falha nestes critérios, é seu trabalho destruir as pás.

Um designer usa sua experiência a serviço dos outros sem ser um servo. Dizer não é uma habilidade de design. Perguntar porquê é uma habilidade de design. Revirar os olhos não é. Perguntar a nós mesmos “porquê estamos fazendo algo” é uma pergunta infinitamente melhor do que “como podemos fazer”.

Designers valorizam críticas.

Nenhum código de ética deve proteger seu trabalho de críticas, sejam de clientes, do público ou de outros designers. Ao invés disso, devemos encorajá-las para criarmos trabalhos melhores no futuro. Se seu trabalho é tão frágil que não suporta a qualquer crítica, ele não deveria existir. A hora de colocar um projeto à prova é no momento em que ele sai para o mundo. Esteja aberto às críticas vindas de qualquer lugar.

O papel da crítica, quando dada da forma certa, é de avaliar e melhorar o trabalho. A crítica é um presente. Ela torna o trabalho melhor. Ela mantém trabalhos ruins longe da luz do dia.

Críticas devem ser solicitadas e bem-vindas a cada etapa do processo de design. Você não pode corrigir a receita de um bolo uma vez que foi ao forno. Mas você pode melhorar as chances de que seu projeto seja bem sucedido ao pedir feedback mais cedo e em maior quantidade. É sua responsabilidade pedir críticas.

Designers se esforçam para conhecer seu público.

O design é uma solução intencional para problemas dentro de uma conjunto de restrições. Para saber se está resolvendo esses problemas de forma adequada, você precisa conhecer as pessoas que os estão enfrentando. E se você faz parte de um time, seu time deve ter como meta refletir estas pessoas. Quanto mais um time reflete o público para a qual se está trabalhando, mais profundamente ele conseguirá resolver esses problemas. Dessa forma, o time poderá investigar a situação de diferentes pontos de vista, usando o repertório de diferentes origens, diferentes conjuntos de necessidades e experiências. Um time com um único ponto de vista nunca irá entender as limitações que precisam ser consideradas no projeto da mesma forma que um time com múltiplos pontos de vista o faria.

E o que dizer sobre empatia? Empatia é uma palavra bonita para exclusão. Se você quer saber como mulheres vão usar algo que está sendo projetado, tenha uma mulher no time de design.

Designers não acreditam em casos isolados.

Quando você decide qual grupo de pessoas é seu público final, você está implicitamente declarando qual grupo não é. Por anos nos referimos às pessoas que não eram essenciais ao sucesso dos projetos como “casos isolados”. Nós estávamos marginalizando essas pessoas. E estávamos tomando uma decisão de dizer que existem pessoas no mundo com problemas que não valem a pena ser resolvidos.

O Facebook declara ter dois bilhões de usuários. Um por cento de dois bilhões de pessoas, porcentagem que seria considerada como um “caso isolado”, equivale a vinte milhões de pessoas. Essas são as pessoas nas margens.

“Quando você chama algo de caso isolado, você na verdade está apenas definindo os limites daquilo que você se importa.” — Eric Meyer

Essas são as pessoas trans que ficaram isoladas em projetos que exigem “nomes reais”. Essas são as mães solteiras que ficaram isoladas nos “ambos os pais devem assinar”. Esses são os imigrantes idosos que apareceram para votar e não conseguiram urnas com interfaces em suas línguas maternas.

Esses não são casos isolados. São seres humanos, e nós devemos a eles nosso melhor trabalho.

Designers são parte de uma comunidade profissional.

Você faz parte de uma comunidade profissional, e a maneira como você faz o seu trabalho e se porta profissionalmente afeta a todos nessa comunidade. Da mesma forma como marés altas afetam todos os barcos, c*g*r na praia afeta todos os banhistas. Se você for desonesto com um cliente ou empregador, o designer depois de você pagará o preço por isso. Se você trabalha de graça, o designer depois de você terá isso como expectativa do cliente. Se você não oferecer resistência a fazer trabalhos ruins, o designer depois de você terá o dobro do trabalho para fazer isso.

Enquanto um designer tem uma obrigação ética de ganhar seu sustento fazendo o melhor das suas habilidades e oportunidades, fazer isso às custas de outros na mesma área de atuação é um desserviço a todos nós. Nunca puxe o tapete outro designer para alcanças as suas próprias metas. Isso inclui “melhorias públicas” do trabalho de outra pessoa, trabalhos não remunerados e plágios.

Um designer busca fortalecer a comunidade, não dividi-la.

Designers valorizam um campo diverso e competitivo.

Ao longo de suas carreiras inteiras, designers buscam aprender. Isso significa confrontar o que não sabem. Isso significa ouvir as experiências de outras pessoas. Isso significa valorizar e encorajar pessoas de diversos perfis e culturas. Isso significa abrir espaço na mesa para pessoas que a sociedade tem historicamente deixado de fora. Nós devemos abrir espaço para que vozes tradicionalmente marginalizadas sejam ouvidas na profissão.

“Você nunca vai dar errado quando trabalhar com alguém mais inteligente do que você.” — Tibor Kalman

A diversidade gera um design melhor.

Designers mantém seus egos sob controle, sabem quando calar a boca e ouvir, são cientes de seus próprios vieses (e valorizam quando alguém os chama a atenção por um deles), e lutam para abrir espaço para aqueles que foram silenciados.

Designers investem em auto reflexão.

Ninguém acorda um dia fazendo design para jogar sua ética pela janela. Isso acontece lentamente, um passo em falso por vez. É uma sequência de pequenas decisões que podem parecer tranquilas na hora, até que eventualmente você nota que está fazendo a interface de uma loja de uma armamentos.

Invista um tempo para auto reflexão de tempos em tempos. Avalie as decisões que tomou recentemente. Você está se mantendo verdadeiro a quem você é? Ou você está lentamente aumentando seus limites éticos em alguns metros a cada vez que recebe um aumento ou promoção?

Você saiu do rumo? Corrija-o. Seu local de trabalho é um buraco dos infernos antiético? Consiga outro.

Seu trabalho é uma escolha. Por favor, faça-a de forma correta.

Você encontra o livro ou e-book, que pode ser lido no app Amazon Kindle: https://www.amazon.com.br/Ruined-Design-Designers-Destroyed-English-ebook/dp/B07PS16XY9

daydreamer

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