Músicas para a quarentena: diálogos interiores

Você me pergunta sobre como foi meu dia
E eu te respondo somente a meia-noite
Mas pelo menos eu ofereço a sinceridade
De que está caindo e eu estou

Esse álbum melancólico e viciante chamado Violeta, da banda Terno Rei tem me acompanhado nesses dias de quarentena. Sabe aquela frase que a gente ouviu alguns meses atrás dizendo “saudade do que a gente não viveu ainda?” É um pouco sobre isso.

Se quiser, dê play e acompanhe minha linha do tempo… que por conta do coronavírus, se parece com um gif em loop. Escrever me ajuda a sair de dentro de mim, mesmo dentro de casa.

Entender os sentimentos coletivos nesses tempos de pandemia é como estar com medo em uma montanha russa. Tem dias que parece que é assim: vamos aprender a lidar com isso mesmo; e alguns dias de uma tristeza profunda, depois de ler as notícias.

Nos primeiros dias de março, tudo parecia que ia voltar ao normal: andar de ônibus para fazer as coisas do dia a dia, tomar café perto do trabalho, ir para o escritório, encontrar os colegas de trabalho, continuar encontrando os amigos para beber, sair pra almoçar no shopping, viajar para visitar a família entre tantas coisas comuns da rotina. Mas tudo mudou.

Já estamos vivendo uma rotina diferente e algumas coisas vão continuar esquisitas daqui pra frente. Além desse sentimento de luto coletivo, percebo as mudanças que as pessoas estão fazendo para se adaptar. Quem conseguir pensar e abraçar a distância nesse momento de confusão, mostrar a verdade, ter compaixão com a dor alheia, entender a dimensão do que está acontecendo, será lembrado pelas atitudes ou então poderá cair no ostracismo. O altruísmo tem se mostrado a melhor parte nossa enquanto seres humanos e o egoísmo nunca mostrou tanto todas as suas facetas.

Isso é o que eu passei a pensar muito sobre a minha caminhada até aqui, nesse ano em que completei 31 anos, isolada em casa com meu namorido e longe de todos (assistindo as notícias e chorando). O retorno de saturno começou assim: com os dois pés, chacoalhando a vida inteira. Também passamos o aniversário dele sozinhos, a páscoa, dois feriados e o dia das mães e não tem sido fácil. Estávamos preparados para o que está acontecendo hoje, quando pensávamos em 2020 ou nos próximos 5 anos? Quando me faziam essa pergunta em alguma entrevista ou conversa de bar, minha mente me levava para esse conto chamado “Se eu fosse eu”:

“Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto, já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”

Texto extraído do livro “A Descoberta do Mundo”, da Clarice Lispector.

Minha reflexão sobre esse futuro nebuloso, organizando meu currículo, revendo vários trabalhos e projetos que já fiz ou participei, me trouxe muitos pensamentos sobre toda fase “Violeta” que tive até aqui anteriores e cada descoberta do que eu pensava sobre os próximos capítulos.

“Quanto tempo faz?”

Primeiro emprego com carteira, como “desenhista industrial gráfico”. Primeira vez trabalhando em equipe, mais de 8 pessoas no time de criação (cada um com um background diferente) e a empresa tinha mais de 170 funcionários. Foi um período de muito aprendizado, principalmente por ser uma fábrica e ter todos os processos e setores separados. Era muito massa ver acontecendo todas as etapas que um produto teria, logo acabávamos de desenhar no computador.

“Onde vou agora? Respirar lá fora”

Meu sonho de princesa sempre foi trabalhar com design e morando no interior o que tinha a princípio era trabalhar com projetos. Comecei como projetista em uma loja de móveis planejados e fiquei por um ano e nove meses. Os conhecimentos que mais me moldaram dessa época (além de trabalhar com pessoas que foram uma família, dividindo muitas pizzas e espumantes) foi aprender a trabalhar diretamente com atendimento a clientes. Cada lar é um e cada pessoa tem gostos muito pessoais, entender os problemas que seriam solucionados com esses projetos era um desafio, mas o resultado final e a felicidade nos olhos de quem via o projeto em 3D se tornar realidade sempre deixava o coração quentinho.

“Eu conheço a sua dor, eu andei por esses lados”

Em 2012 com 22 anos, comecei a trabalhar com algo que eu fazia desde que comprei meu primeiro computador com 15 anos: desenvolver projetos gráficos e sites. Também comecei a fazer colagens, artes digitais e alguns rabiscos (que ainda não evoluí tanto quanto gostaria rs). E foi quando aprendi algumas coisas sobre programação e também criar para aplicativos (colegas devs se tornaram meus melhores amigos e inspiração também, a partir desse período). Os dois anos que trabalhei nessa agência foram um período bem difícil. Perdi meus dois avôs, paterno e materno, minha bisavó e uma amiga, ainda bem que minha família sempre esteve comigo. Carreguei essa dor comigo em silêncio. 2013 principalmente, foi um ano inteiro com essa sensação de luto. Foi a coisa mais difícil que eu já fiz e como eu não conseguia falar muito sobre os meus sentimentos com desconhecidos, eu acabava todo dia esgotada mentalmente. Ouvia muitas críticas por não fazer o estado da arte que alguns colegas esperavam, por aprender a trabalhar sob pressão mesmo sem conseguir, por ter que lidar com o perfeccionismo e com críticas de quem nunca construiu nada. Foi uma mistura de ansiedade, falta de ar e crise de pânico. É aquela velha história: ser mulher em um ambiente hostil e machista e os traumas que carregamos dessas experiências. (No dia das mulheres desse ano, quem me humilhou e fez chorar na frente dos colegas, quase desistir de trabalhar com o que eu faço fez um comentário em um post e eu tive a mesma falta de ar de 2013. Ok, nada que respirar fundo e uma terapia não resolva, nos disseram pra acreditar que as pessoas mudam e evoluem. Darwin às vezes não me deixa acreditar).

“Pois esse bairro está tão colorido e não é carnaval, não tem folia”

O que falar desse lugar que foi uma segunda escola? Não estou colocando nomes, porque prefiro apenas lembrar dos fatos e acontecimentos e como eles me marcaram. Pensar em eventos, ocasiões importantes, nascimentos, casamentos e formaturas me ensinou demais. Foram dias coloridos, de muito trabalho mas que me trouxeram muitos novos conhecimentos e aprendizados.

“Estava ali sem saber e quanto mais eu tento eu não sei”

Primeira experiência de home office, foi há cinco anos. Só tenho a agradecer por esses jovens me deixarem trabalhar de roupão e pantufa no frio de Lages (a gente também usava pantufa no escritório haha). Além disso, aprendi tanto sobre diversidade e aceitação, de como é massa ser esquisito. Aprendi coisas sobre bandas de metal, frontend, café com paçoca, mangás, animes e cultura japonesa em geral, todos os tipos de chocolate possível, emocore — que não era o da minha adolescência; além de outras coisas que me acompanham até hoje. Também foi quando meus colegas me apresentaram o nubank e eu comecei a entender e pesquisar mais sobre design em produtos digitais.

“Acelerar, onde é que vou? Perdido no meio da multidão”

Me mudei de Lages para Blumenau em 2017, depois de terminar minha Pós-Graduação. Me sentia preparada para desafios e projetos maiores. Até então foram 7 anos trabalhando em empresas menores, com clientes da região sul do estado de Santa Catarina, mas ainda não era o que eu queria. Fiz algumas entrevistas e comecei a trabalhar e uma empresa de desenvolvimento web, mas que tinha um portfolio de clientes muito legais. Pude entender mais sobre o mercado do Vale e também como aqui é pertinho do litoral, projetos para empresas da região também aconteceram. Essa fase é aquela frase “se der medo, vai com medo mesmo”.

Um ano depois fui chamada para trabalhar como designer freelancer em uma agência interna, como MEI/PJ mas com disponibilidade de trabalho home office. Foi incrível, primeiro aprender sobre as responsabilidades que um microempreendedor precisa ter, aprender a gerenciar o próprio tempo, organizar as tarefas da semana, saber os dias que precisaria sair e também como é trabalhar em casa novamente. Foram quase dois anos trabalhando assim, tenho boas lembranças e também levo muita bagagem desse período.

Por ter flexibilidade, tive a oportunidade de ir em alguns eventos em São Paulo, fazer cursos em horários alternativos e também a trabalhar em coworking ou cafés de Blumenau. Foi uma experiência muito legal. Também foi quando comecei a pensar na transição de carreira como designer gráfica e com as habilidades que desenvolvi em projetos de sites, landing pages e aplicativos para migrar de área.

Em agosto de 2019 me arrisquei e entrei para uma empresa de tenologia da informação, para trabalhar como UX Designer. Tive a oportunidade de trabalhar com clientes e projetos de grandes estruturas e entender como funcionava o fluxo de trabalho de desenvolvimento de software como produtos e serviços tecnológicos, suporte, metodologias ágeis, análise de sistemas e inovação. Pude trabalhar em home office também e com direito até a bolo no café da tarde.

“Tem um milhão de coisas que eu não sei” — Vento na cara, Terno Rei

Dias violeta

Cada período eu coloquei nas fotos da minha timeline, tem um trecho de alguma das músicas do álbum. A última música, “Vento na cara” é uma das que eu mais gosto. Sobre aprender um milhão de coisas nesse período de crise, quarentena e isolamento social, tem sido mais um desafio. Recebo links, cursos e indicações de filmes e livros quase todos os dias. E não consigo me concentrar 100% em fazer todos. O que consegui fazer para ajudar é separar os dias em que consigo estudar alguma coisa, os dias em que o trabalho já ajuda ocupa a maior parte do dia e a noite para estudar um pouco sobre temas relacionados, mas não vou sair desse período falando 5 idiomas e fazendo ioga de ponta cabeça. Penso em todas as pessoas e no sofrimento humano com certa frequência e isso é dolorido.

Ter essa sensação de querer abraçar o mundo e estarmos por algum tempo suspensos de afeto e abraços, é o que mais pesa. Cada um sabe as dores que carrega, o que sabemos do outro é apenas a superfície do iceberg. O tempo que estamos vivendo é algo que só tínhamos visto em livros ou filmes de distopia, nunca que 5 anos atrás eu imaginaria estar vivendo tantas transformações, desde o modo de trabalhar, fazer compras ou falar com os amigos. Não é apenas trabalhar em casa ou ter que se virar como dá pra economia não colapsar (como nossos governantes querem que a maioria das pessoas faça), é viver sabendo da letalidade que o vírus tem e a dor que milhares de famílias no mundo e agora em grande escala no Brasil estão passando.

O mínimo que podemos fazer agora é lembrar sobre quem somos, tirar forças para seguir em frente e cuidar muito da nossa saúde e de quem amamos. Aqui fica um pouquinho da minha jornada, do que eu tenho sentido sobre hoje, olhando o ontem e aguardando ansiosamente por todos os abraços que estou guardando. Por enquanto ouço músicas em forma de abraço pra diminuir a saudade.

“Quando estou aqui, estou inteiro”

Obrigada por essa lindeza & sinceridade, @ternorei.

Mais leituras sobre o álbum

daydreamer

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