É tudo sobre o percurso, não o destino

Chego ao fim de mais um ano e penso muito sobre o final das histórias, o destino, e, especificamente nos últimos tempos sobre a continuação (no caso um vício que a Netflix tem feito muito bem — vide maratonas de séries inteiras em um final de semana). Como leitora e uma aspirante a livreira, acredito demais que o percurso é mais importante que chegar ao final. Sabe como é, aquele conceito do monomito, que é uma jornada cíclica presente em diversos arquétipos e mitos. É sobre isso que eu revisitei minhas leituras desse percurso.

Como eu me sinto no final do ano.

Nesse último mês da década (🤯) contando os últimos dias para chegar em 2020, parei para pensar resumidamente em tudo o que aconteceu nesses últimos 10 anos e quantas coisas mudaram. Tanto no mundo ao redor quanto internamente. Posso dizer com toda certeza que o que mais me transformou foi a leitura. Poder fechar a última página desse ano, com mais de 300 livros físicos lidos durante a vida (sem contar os abandonados) mas com a estante cheia de livros na fila de espera é a métrica que eu mais me orgulho (além do meu last.fm, que é o site onde eu deixei mais dados musicais, desde que a internet era tudo mato).

Até o meio do ano, estava trabalhando como designer remotamente, para uma empresa (ou home office, freelancer, PJ, MEI — sem CLT, in brazilian portuguese). Com tantas mudanças acontecendo no contexto político, econômico, social, tecnológico e nas minhas experiências pessoais de trabalho nos últimos 10 anos, resolvi migrar para a área de tecnologia trabalhar com design de experiência do usuário. Seria muito bom aproveitar meu conhecimento em desenvolvimento de interfaces e o que já tive de projetos e trabalhos sobre marketing e produtos digitais. Além de ser uma moradora de bibliotecas, e ter usado quase todas as redes sociais, formatos de aplicativos e sites criativos, usar meu conhecimento enquanto designer em essa experiência visual de ser heavy user de internet é uma combinação muito enriquecedora.

Também comecei a participar de eventos da área de tecnologia, que acrescentaram muito na minha visão de futuro da profissão, novas perspectivas de carreira e conhecimentos incríveis. Com isso consegui voltar a estudar e focar em coisas que eu realmente precisava para me atualizar. A leitura é algo essencial na minha rotina — antes eu escrevia em blogs e compartilhava minhas resenhas aqui no no Skoob. Esse ano fui bem seletiva com os livros físicos, porque queria informações que eu pudesse realmente colocar em prática no meu dia a dia, então vou listar aqui 4 livros escolhidos a dedo e que me marcaram bastante.

Um teto todo seu — Virginia Woolf

Essa foi uma leitura transformadora, daquelas que você finaliza o livro querendo abraçar a escritora. Não tenho palavras para descrever o impacto que a Virginia Woolf tem na minha formação como leitora e mulher. Ela conseguia visualizar a evolução e perspectivas sociais e antropológicas décadas a frente do seu tempo. Os questionamentos que ela propõe nesses ensaios são muito pertinentes e questionadores pois são acontecimentos do começo do século e que ainda hoje existem na nossa sociedade.

Essa foi a capa da página que eu fiz (maio/2019) para meu projeto do curso intensivo Edit — Layout e Diagramação, da Escola Casa.

Em “Um teto todo seu”, Woolf imagina como seria a vida de uma possível irmã de Shakespeare. Como mulher, quais seriam os empecilhos durante sua jornada, quais responsabilidades seriam atribuídas em tarefas domésticas, o casamento e os filhos considerados como um destino já definido. Enquanto seu irmão jamais ouviria que essas atribuições são mais dignas que se dedicar a literatura. Dedicar-se à arte e ser reconhecida pela sociedade não é apenas questão de mérito. Há privilégios educacionais, econômicos e de gênero envolvidos no processo. Pense nesses motivos e possivelmente você vai encontrar os motivos pelos quais não há tantos romances, poemas, obras de arte, peças ou estudos escritos por mulheres no decorrer dos últimos séculos.

Diagramação para revista, feita durante o curso intensivo da Escola Casa

“A vida para ambos os sexos (…) é árdua, difícil, uma luta perpétua. Requer coragem e forças gigantescas. Mais que qualquer coisa, talvez, criaturas da ilusão como somos, ela requer confiança em si mesmo. Sem autoconfiança, somos como bebês no berço. E de que modo podemos adquirir essa qualidade imponderável, que também é tão inestimável, o mais rápido possível? Pensando que as ouras pessoas são inferiores. Sentindo que temos uma superioridade inata. (…) As mulheres tem servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a imagem do homem com o dobro do tamanho natural”.

Consegui ler esse livro no ônibus durante o trajeto para o trabalho, refletindo sobre toda a carga que carregamos diariamente. Nas nossas tarefas domésticas e em nossos trabalhos, a dificuldade que temos em ouvirem nossa voz, em respeitarem nossas opiniões e principalmente nos deixarem falar. Sei o quanto isso prejudica nosso crescimento e como algumas pequenas faíscas tem acontecido nos últimos anos. A mudança de atitude durante esse século são visíveis, mas muitos padrões ainda estão arraigados no comportamento individual. Acredito muito que um dia teremos ambientes igualitários e de respeito, mas a nossa geração ainda tem muito para aprender e muitos pensamentos para desconstruir. É uma mudança de pensamento e cultura, que ainda encontra bases sólidas de indisposição para a mudança. O processo é mais lento do que sonhamos.

“Tudo que eu poderia fazer seria dar-lhes a minha opinião sob um ponto de vista mais singelo: uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção.”

Virgínia Woolf

miga Vivi, lindíssima falou tudo ❤

Dicas de leituras e um filme sobre a Virginia:

Outros livros maravilhosos que eu li e recomendo e o filme “As horas”, que é incrível.

Ainda tenho vários livros dela na minha fila de espera, mas é sempre uma experiência imersiva e sensorial ler Virgínia. Recomendo muito ❤.

Mostre seu trabalho — Austin Kleon

Ganhei esse livro da minha migs e colega Aline Sobierajski @alinezob, gracias por tudo querideza! ❤

Muitas trocas e aprendizados que eu tive de 2015 a 2017, durante a minha pós na Univali em Floripa, estando em contato quinzenal (e online até hoje) com meus colegas ilustradores e designers é sobre a insegurança de tirar nossos trabalhos e projetos da gaveta. Quando comecei a trabalhar no setor de criação em agências, não tinha experiência mas tinha muita curiosidade e vontade de aprender.

Ouvi muitas críticas que poderiam ter me desmotivado ou me feito parar de persistir e aprender o que eu gosto de fazer que é pensar, criar, resolver soluções visuais, desenhar um mundo mais colorido, em todos os sentidos. Por um tempo eu levei a sério demais o que os outros pensavam ou falavam sobre o meu trabalho (e sei que ainda hoje isso tem um peso desnecessário e que aumenta demais a minha ansiedade e perfeccionismo). Ler muito sobre empatia tem me ajudado a colocar em prática “estar no lugar do outro”, e me ensina como entender que cada indivíduo tem suas dores, suas vivências e conhecimentos, e que críticas sempre vão existir o importante é filtrar o que vai te fazer evoluir.

Infográfico da Revista Educação Pública: Empatia, exigência do mundo atual

A partir de uma crítica que eu recebi certa vez durante um trabalho que estava em andamento, pensei quantas vezes eu fui desencorajada a fazer o que eu gosto. Pensando nessa ideia de que projetos criativos chamamos de WIP ou “work in progress/process” — que significa trabalho em andamento, decidi colocar em prática depois da leitura desse livro sobre o meu trabalho e o que eu acredito sobre processos, técnicas e aprendizados: “always a work in progress”.

Mostre seu trabalho — 10 maneiras de compartilhar sua criatividade e ser descoberto, é um livro do Austin Kleon, mesmo autor de “Roube como um artista”. É uma leitura muito agradável para quem tem interesse em abandonar alguns medos, anseios e inseguranças, mesmo que seu trabalho não esteja no nível que você espera: é importante você ser sempre curioso e se manter em constante evolução. É um aprendizado essencial para qualquer área: você não precisa ser um gênio, aprenda a contar boas histórias, ensine o que você sabe, saiba apanhar e abrace quem vê esse brilho em você.

Não deixe sua luz se apagar e mostre seu trabalho para o mundo.

Uma vida sem lixo

Acompanho o projeto da Cristal Muniz há pelo menos 3 anos. Sempre fui entusiasta de ideias ecológicas e sustentáveis, principalmente porque minha mãe é professora de ciências, biologia, educação ambiental. Atualmente ela é consultora do Instituto Lixo Zero, atuando no Projeto Cidade Limpa, em Ponte Alta-SC. Desde o início do projeto atuo como designer voluntária, criando alguns materiais digitais, divulgação, identidade visual e ecobags. A cidade tem pouco menos de 5 mil habitantes, porém o projeto é muito importante para a conscientização de boas práticas diárias e redução do consumo de produtos e a produção de lixo e resíduos. As iniciativas tem diversos projetos para incluir a coleta seletiva como hábito da população como palestras, eventos, oficinas, rodas de conversa, entre outras ações.

Percebemos o tamanho do impacto que grandes indústrias e fábricas têm no clima, na poluição em grande escala e até na alimentação. Mas tomar pequenas atitudes como separar o próprio lixo, incentivar a coleta seletiva no bairro, conscientizar pessoas do nosso trabalho a separar e reduzir a forma que consomem embalagens é uma corrente de mudança de pensamento, que tem impactos pequenos mas significativos.

O livro mostra diversas atitudes que podemos mudar, até na hora de comprar nossos alimentos, reduzir o desperdício, descarte correto de remédios e eletrônicos, fazer cosméticos e produtos de limpeza e abraçar um estilo de vida mais natural e minimalista. São pequenas dicas e escolhas que reduzem nossa produção individual de lixo, nos fazendo refletir sobre o consumismo e como viver de forma simples.

Ainda tenho muito o que aprender sobre hábitos (principalmente com relação a alimentação saudável) mas entender que não existe “fora” quando falamos sobre nossa produção de lixo, aprendemos que é uma prática diária criar rotinas para essa conscientização. E a Cristal faz isso de uma forma simples de por em prática.

Toda a minha gratidão especial é para a minha mamis Marcia, por me incentivar a esse tipo de conhecimento e conscientização e por incluir isso na comunidade facilitando o entendimento e a disseminação de práticas ecológicas ❤

Design Emocional

Esse pra mim é a leitura do ano. Já tinha lido alguns artigos do Donald A. Norman durante a minha graduação e sempre foi muito esclarecedor do meu papel enquanto designer e projetista. Ele é co-fundador do Nielsen Norman Group. Ele mostra de forma didática e compreensível todos os níveis emocionais que um produto precisa ter para ser bem sucedido.

A UX tem relação com a usabilidade, a facilidade de uso de um serviço ou produto. Porém, essa experiência não trata somente do produto, mas de toda relação que o usuário terá com a marca. As ações de marketing, o contato, a reputação, a compra, o unboxing, o tempo de entrega, a chegada do produto ou serviço, o uso e o suporte.Dentro de cada uma dessas etapas existem várias peculiaridades que fazem o cliente se tornar fiel à marca.

Esse é um vídeo onde ele explica de forma simples a definição do termo UX:

Nosso papel enquanto designers, não é apenas “desenhar telas ou páginas bonitas”, como ele bem explica, mas pensar em diversas soluções que facilitem o aprendizado do usuário, relacionadas com a psicologia das cores, escolhas de tipologias, ações de erro e acerto, entre outras informações, como pensar nos usuários que terão pontos de contato com esse produto — físico ou digital — e toda a experiência emocional: ligada a sensações e percepções, compreensão das informações, memória, afeto e comportamentos culturais. Precisamos pensar que seremos responsáveis pela percepção (primeiro contato) e pela cognição (interpretação) que o usuário terá ao usar um produto ou sistema. Temos muitas empresas de exemplo que usam a experiência como peça fundamental de todo desenvolvimento como a Apple, Netflix, Spotify ou mesmo o Nubank. Além de cada serviço ou produto ser personalizado ele atinge níveis de emoção e conexão muito maiores com seus usuários.

Hoje sabemos que a mesma lógica usada durante a revolução industrial não se aplica ao usuário nativo digital, fabricar já não é mais um diferencial. Hoje é preciso que toda a experiência pensada para criar conexões, pensadas na individualidade e na diversidade que existe entre cada pessoa. O consumidor digital é muito mais exigente e impaciente, ele pensaria muito antes de voltar a usar um serviço ou aplicativo onde teve uma experiência ruim. É preciso fazer algumas perguntas no início de qualquer projeto de design: entender como é que o usuário se comporta? O que que ele quer? Quais são os desafios que enfrenta de uma forma geral? Estas são algumas das questões que o UX tenta responder e resolver. O foco principal deve ser sempre nas pessoas, em suas vidas, suas dores e seus sonhos.

Aqui é um resumo de algumas leituras que realmente me impactaram durante esse ano. Que os próximos sejam cada vez mais brilhantes e incríveis. Por último uma reflexão de um cara que colocava o design e a experiência em primeiro lugar nos seus produtos e serviços:

Algumas pessoas acham que foco significa dizer sim para a coisa em que você irá se focar. Mas não é nada disso. Significa dizer não às centenas de outras boas ideias que existem.

Steve Jobs

daydreamer

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